Conscienciosidade, também conhecida como “consciência” ou “responsabilidade”, é um traço de personalidade que se refere à tendência de uma pessoa em agir de maneira organizada, planeada e confiável. Pessoas altamente conscientes são geralmente cuidadosas, meticulosas e atentas aos detalhes em suas ações e responsabilidades. Tendem a estabelecer metas claras, trabalhar de forma consistente para atingir essas metas e cumprir compromissos.
Esse traço de personalidade também está relacionado com autodisciplina, perseverança e sentido de dever. Pessoas conscientes tendem a ser mais focadas em suas tarefas, têm uma abordagem mais metódica para o trabalho e são mais propensas a evitar comportamentos impulsivos. Elas também são mais propensas a seguir regras, respeitar prazos e manter a palavra dada aos outros. É considerado um dos fatores com maior capacidade de predição de sucesso individual.
A conscienciosidade é um dos cinco traços da teoria dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade (também conhecida como Modelo dos Cinco Fatores), sendo os outros quatro traços a extroversão, amabilidade, estabilidade emocional e abertura para experiências. Cada pessoa exibe esses traços em diferentes graus, e eles desempenham um papel significativo em moldar a forma como uma pessoa interage com o mundo ao seu redor.
Alguém a quem é diagnosticado défice de atenção é automaticamente rotulado como tendo baixos níveis de conscienciosidade tendo em conta a “típica” desorganização, dificuldade em cumprir prazos e terminar tarefas o que é corroborado pela literatura. Este facto talvez leve à ideia muito enraizada, até mesmo entre alguns psiquiatras e psicólogos, que se alguém tem sucesso ou uma profissão exigente (exemplos típicos: médico, advogado, juiz) não pode ter perturbação de défice de atenção. O que é FALSO.
Na minha prática clínica tenho observado várias pessoas com muito elevado funcionamento que apresentam todos os critérios para perturbação de défice de atenção com início na infância inclusivamente a procrastinação, dificuldade em terminar tarefas atempadamente, dificuldade em manter o foco.
No entanto, há algo comum a todos estes “phda de muito alto funcionamento”. O primeiro diria, são os níveis de conscienciosidade muito elevados (nas escalas de avaliação de personalidade podem cotar como baixos uma vez que são tipicamente muito críticos do seu funcionamento e sobrevalorizam os seus défices.) Este elevado nível de conscienciosidade leva a mecanismos de compensação nem sempre adaptativos. São eles:
- Estimular a ansiedade:
Para pessoas conscienciosas com PHDA a ansiedade causada pela pressão pode ser o estímulo necessário para executar uma tarefa. Há duas formas típicas de aumentar a pressão:
- Deixar para a última hora para que o medo de não concluir se torne o estímulo necessário.
- “Recrutar” controlo externo: comprometer com outras pessoas a realização de trabalhos mais difíceis ou complexos.
Apesar de eficaz este mecanismo é fortemente potenciador do surgimento da perturbação de perturbações de ansiedade.
2. Comportamentos obsessivos:
A criação de frequentes checklists (checklist para sair de casa é um exemplo frequente), rituais de verificação. Tal como o estímulo de ansiedade esta pode por vezes tornar-se numa perturbação obsessiva.
3. “Complexificação” ou Superação
Um dos mecanismos adaptativos mais eficazes que tenho visto os PHDA de elevada performance utilizar é este. Como todos sabemos as tarefas rotineiras são um dos maiores inimigos dos portadores de défice de atenção. Para um cirurgião com PHDA como não falhar em cirurgias rotineiras? Exigir a perfeição. Tornar cada um dos passos da cirurgia um movimento ou gesto técnico perfeito. Menos que isso é insatisfatório. E para um contabilista não falhar em tarefas rotineiras? Hiperfocar para fazer muito rápido e ultrapassar o seu anterior record.
Mas, perguntam-me. Podemos falar de uma perturbação ou doença numa pessoa que atinge níveis de funcionamento destes? Podemos. Certamente podemos. Mas e o sofrimento? o sofrimento é exageradamente elevado para a performance atingida (face às capacidades). E talvez ajude um pouco a perceber como as comorbilidades: ansiedade e perturbação depressiva recorrente são tão frequentes. E muita atenção a todos os médicos e principalmente aos psiquiatras, a maior parte das pessoas procuram-nos pelos sintomas da depressão e ou da ansiedade… o resto…. “sempre fui assim.