A Covid19 – Gestão de expectativas 2 – O luto de um estilo de vida.

Foi há pouco mais de um mês que todos nós sem excepção sofremos a maior alteração das nossas vidas. Algo como nunca tínhamos vivido até então.

Uma nova doença provocada por um vírus novo vindo da China do qual sabíamos (e continuamos a saber) pouco. Sem saber como se transmitia, como e quem afectaria até onde se espalharia a pouco e pouco os países foram sendo atingidos e tomando decisões uma das quais a mais sentida com todas as suas consequências – o confinamento/isolamento social.

Inicialmente predominou o medo e a ansiedade ligados ao receio de contrair a doença e suas consequências, o receio de pessoas queridas mais vulneráveis serem infectadas e o medo de as perder. Foram também predominantes a ansiedade e o stress devido às grandes alterações das rotinas diárias, o trabalho para os que não podem trabalhar, o trabalho para os que têm uma enorme sobrecarga porque trabalham em áreas que ou não podem parar como a segurança, os serviços essenciais e os que trabalham directamente com a doença – profissionais de saúde.

Para as crianças a alteração das rotinas mas a necessidade de aprender à distância com um conjunto de novas exigências, o convívio com os pais em teletrabalho e estes aflitos para o conciliar com as novas rotinas dos filhos, da casa, de gerir a alimentação e tudo o resto.

Para os idosos que já passaram muitos anos alguns com bastantes sacrifícios, uma guerra mundial, várias recessões e é agora uma coisa desconhecida que ameaça encurtar-lhes subitamente a vida mas mais grave que tudo para quem já não teme muito viver menos uns tempos é ficar sem o contacto com a família, os netos, o convívio com os amigos. É a tristeza que surge mas também uma grande dificuldade em aceitar e incorporar as alterações de vida que esta epidemia ditou.

Progressivamente o isolamento e diminuição da interação social tem vindo a agravar as tendências aditivas em pessoas mais susceptíveis onde o consumo de álcool lidera mas não em exclusivo. O jogo online e consumo de pornografia tiveram grande aumento neste período de confinamento.

E se até há pouco tempo se pintavam arco-íris a dizer que tudo vai ficar bem hoje já nem os mais distraídos nem os mais optimistas conseguem pensar assim. E ainda bem. Porque a percepção da mudança é fundamental para adaptação à nova vida. À vida diferente que virá. A Pandemia mostrou-nos objectivamente algo que os cientistas, infecciologistas entre outros sabem e sempre souberam. Há seres vivos na terra que têm muito mais poder e capacidade de adaptação que o homem: os vírus e as bactérias.

Esta pandemia veio mostrar que o nosso estilo de vida nos fragiliza muito enquanto espécie. A exposição a ameaças com tantos movimentos entre populações seja por negócios, turismo ou outros motivos já tinha demonstrado que não era viável em termos de ecologia mas agora mostrou-nos que é perigosa para a espécie.

E a pouco e pouco todos vamos percebendo que a vida pré-Covid não pode manter-se.

Ninguém o quer dizer mas todos sabemos que é assim e ainda bem porque quanto mais depressa o assumirmos mais depressa podemos começar o luto e a viver saudavelmente a nova vida como em todas as experiências de luto que são vividas de forma saudável.

São habitualmente reconhecidas no luto quatro fases. A Negação, a raiva, a negociação e a tristeza/aceitação.

Para já parece-me que ainda estamos na primeira: A NEGAÇÃO. Aqui não falo tanto da negação da doença que vemos inclusivamente alguns lideres mundiais a assumir mas a negação de que acabou uma era e com ela um estilo de vida. A negação está muito presente na forma como se fala do futuro: a dicotomia entre voltar à vida anterior ou manter medidas restritivas é o melhor exemplo de uma negação na nossa sociedade. É o negar que a partir de agora a vida vai ser diferente. E se não for pelas alterações à nossa vida causadas pelas medidas necessárias para proteção da doença, a crise económica que virá a seguir causará uma mudança enorme no nosso estilo de vida.

E é a negação que temos que ultrapassar para protegermos a nossa saúde mental nos próximos tempos ou a depressão aumentará muito.

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